terça-feira, 29 de agosto de 2017


DYLAN DOG & DAMPYR: Atenção naqueles dois!

Por David Padovani
Pode um caçador de não mortos e um detetive do pesadelo nunca terem se encontrado? Recchioni e Boselli pensaram o primeiro crossover da Editora Bonelli.

Em um momento de uma longa e incorporada entrevista concedida ao nosso site faz alguns anos, Mauro Boselli falando de Dampyr, dizia:
"Entre os seus mil componentes, Dampyr tem duas bases. A primeira é aquela realística isto é, o fato que aconteceu no nosso mundo. Se deve dar ilusão, diferente daquilo que acontece em Dylan Dog, aquela de Dampyr é a nossa realidade.
Um detalhe técnico que sempre insisto com os aspirantes a roteiristas é o seguinte: Em Dylan Dog é legítimo que aconteçam cataclismas de todos os tipos: Londres vem a ser invadida pela água, há um terremoto ou uma invasão de zumbis. Em Dampyr isso não pode acontecer: aquilo que acontece na série é o que acontece ao nosso redor. Se uma cidade como Praga na série fica submersa por uma inundação, é porque aconteceu de verdade. Nós fingimos que aquele de Dampyr seja o nosso mundo, não um alternativo."
 
 DOIS COMO ELES: SIMILARES, MAS TÃO DIFERENTES
A primeira vista, dois personagens como Dylan e Harlan parecem terem sido feitos para se encontrarem, dado o horror com que eles lidam nas aventuras deles. No entanto, as palavras de Boselli é fundamental para termos a compreensão tanto da extrema diversidade do contexto dentro o qual se movem os dois heróis para analisarmos a presente história que tem como protagonistas os dois.

Diante de uma "quase" contemporaneidade que o identifica o pano de fundo das aventuras deles, o realismo dentro do qual está imerso o mundo de Dampyr, a estreita continuidade narrativa da série, o real escorrer do tempo para os protagonistas e a natureza dos antagonistas são todos elementos que marcam uma forte distância do contexto a qual nos habituamos nas histórias de Dylan Dog.

Do outro canto, a mesma estrutura narrativa da série do Detetive do Pesadelo - desde as primeiras histórias escritas por Tiziano Sclavi - sempre mostrou varias faces e multiplicidade de tons e temáticas, bem como, interpretações. Isso continua a ouvir-se também na atual gestão de Roberto Recchioni, embora se tenha um maior foco sobre uma certa continuidade interna que antes era quase toda ausente.

Em Dampyr, a ininterrupta presença desde o nascimento da série, com Boselli no papel de responsável, também, é o criador juntamente com Maurizio Colombo, fez a série assumir um ritmo narrativo coeso e único, também quando alternam nas histórias, autores diversos. A voz e o pulso de Boselli se sentem em todo número e a ele está reservada a autoria das histórias fundamentais dos numerosos cruzamentos da continuidade principal do personagem.

CHEGA O DAMPYR... A LONDRES
Como foi dito, a história se abre em Dylan Dog #371, escrita por Roberto Recchioni e Giulio Gualtieri com roteiro do primeiro, com desenhos de Daniele Bigliardo. A presença em Londres de Lodbrok, Mestre da Noite e adversário de Lord Marsden - arqui-inimigo de Dampyr - faz com que Harlan, Kurjak e Tesla partam para a capital britânica e se deparem com Dylan Dog. Ele está envolvido nas tramas de Lodbrok e de John Ghost que descobre-se ter uma ligação e contato com os Mestres da Noite.
Esta primeira parte funciona, para todos os efeitos, como um longo prólogo dos eventos que depois acontecerão e concluir-se-ão na edição de Dampyr. Por outro lado, a impostação da história se assemelha muito aquelas típicas que têm como protagonista Harlan Draka, mais que às aventuras do Detetive do Pesadelo. Se nota a presença de uma digressão histórica e de uma sequência narrativa estática e exclusivamente dialogada na qual se fornece ao leitor uma série de elementos para a plena compreensão da história.
Dito isso, fica evidente que os dois autores utilizam o episódio também para levar adiante as tramas e os planos das séries. A começar por um pequeno evento anterior, como a introdução de uma cantina sob a casa de Craven Road (subterrâneo que sempre existiu, que tinha sido mencionado, mas nunca mostrado, até agora), eficazmente inserido, além disso, com naturalidade, no interno da história. Elemento que pode ser contado entre aqueles "preceitos recchionianos" que teriam (deve ter) o objetivo de oferecer idéias inéditas para histórias novas e diferentes aos vários autores. 
Dylan mais centrado, mais "refinado", sem dúvida mais central no desenrolar dos eventos em relação a Dampyr e pards, coisa que - como veremos - acontecerá na segunda parte. Entre outros, veremos um Dylan mais centrado, menos pessimista e mais "refinado" (estou buscando a palavra) do que estamos acostumados com Recchioni. Isso faz pensar que a chegada de Gualtieri auxiliando na feitura da história tenha sido importante. 

Sobretudo nos diálogos, menos ricos de frases de efeito, resultando mais racionais e eficazes, embora eles sofram - como é frequente nesses casos - de alguns vícios que lhes tornam um pouco pedantes, especialmente na troca entre os dois heróis. Absolutamente bem sucedido - e deixe-me dizer finalmente - Groucho, é o que ficou mais confortável na interação com os "convidados" da história.

A caracterização e o uso de Harlan, Tesla e Kurjak foi bastante superficial, de qualquer forma, mais ligada ao aspecto "muscular" do trio que, embora seja um dos principais componentes nas histórias da série deles, não é a única. Harlan é antes de mais nada um estudioso (profissionalmente tem um livraria), profundo conhecedor dos mitos e folclore (filho de quem é, basta ver as paixões de Boselli) e esta característica está sempre ao seu lado, sempre no seu "dever" de caçador de não-mortos e mestres da noite.

Este aspecto mais intelectual de Dampyr não ficou de fora da caracterização dada por Recchioni e Gualtieri, enquanto as cenas de ação são eficazes e bem coreografadas.

Assim como a ambiguidade moral dos Mestres da Noite - neste caso de Lodbrok - que sempre há nos antagonistas de Harlan, que muitas vezes têm motivações que transcendem a moral humana e o conceito de maldade a essa aplicado.

Aparece de forma eficaz e bem centrado o personagem de John Ghost, também da sua relação com Lord Marsden que se descobre ness história. Recchioni presenteia a seu personagem aquela ambiguidade que falta a Lodbrok, demonstrando uma vez mais que a mais recente fase diferenciada de Dylan, está entre as notas mais positivas da gestão do autor romano e que merece uma presença mais constante e profunda na série.

Daniele Bigliardo, do ponto de vista dos desenhos, desenvolve um ótimo trabalho com o uso inteligente e eficaz do cinza e também um bom resultado nos personagens convidados da série, Harlan sobre todos e em especial nos primeiros planos - talvez em número elevado - onde usa as características da Ralph Fiennes, o ator que "deu" o rosto ao personagem.
Limite de Bigliardo, que pode também ser encaminhado para escolhas precisas da história, está a representação de Dampyr e de seus dois amigos em pose "guerreiros" completamente desconectados do contexto narrativo daquelas passgens (como durante o diálogo-confronto no estúdio de Dylan). Outro sintoma do uso simplista desses personagens.

O DETETIVE DO PESADELO NO FOLCLORE
Em Dampyr #209, Mauro Boselli aposta na ação e os protagonistas vão de Londres à uma das ilhas do arquipélago escocês das Hébridas.
Como marca registrada, o autor milanês enche a a história dos mitos e das lendas do folclore local, enriquecendo-a de particulares históricos que rendem uma aventura mais complexa do que a primeira parte. Boselli também - como os autores da primeira parte - consegue ligar a história à saga narrativa dampyresca, usando a aventura para levar adiante alguns fios da trama sem, porém, esquecer a particularidade desta aventura, dada a presença de Dylan Dog.

E é ótimo e perfeito o uso que o autor faz de Dylan Dog e, ainda mais de Groucho, marcando esse seguimento, na primeira parte da história. Boselli está completamente à vontade na caracterização do Detetive do Pesadelo e do seu assistente: desfruta das características psicológicas dos dois personagens para transformá-los protagonistas fundamentais para o movimento da engrenagem narrativa, sem reduzir-lhes a simples mecanismos.

O autor pesa muito a mão sobre algumas características de Dylan, a sua insegurança, a sua extrema boa fé e que acredita nas pessoas, ou monstros, se vocês quiserem. Daqui vem a atuação "perfeita" do personagem, sobretudo no final da história, debitada sobre as verdadeiras intenções de Lodbrok. A particularidade que Boselli consegue doar a Groucho, comparada aos poderes dos Mestres da Noite, é um golpe de mestre, perfeitamente coerente com o caráter e as características do personagem que, como na primeira parte da história, aparece como nunca se viu.
A isso se junta, entre as notas positivas, a consistente capacidade do autor de criar um cast de coadjuvantes eficazes, variado e nunca banal, a forma como apresenta Lodbrok, um personagem profundo e complexo e a invenção de transformar as "armas de destruição em massa" nas mãos deste último em qualquer coisa de inesperado, mas ao mesmo tempo coerente com significado que a esse pode ser atribuído. Entre as notas negativas há a prolixidade e verbosidade que em algumas passagens são impostas pela mão boselliana e que pesa um pouco em algumas sequências.

Tudo isso faz da segunda parte, se não a mais bem sucedida do crossover, com certeza a mais interessante. Para isso contribui sem dúvida também, os traços de Bruno Brindisi (que faz desta história dupla, do ponto de vista gráfico, uma criatura da considerada "escola salernitana"), também eficaz no uso dos tons de cinza e perfeito nas escolhas da história de Boselli, algumas não tão simples como a dupla splashpage que contém a edição. Brindisi ilustra a sequência em questão com uma maestria que mostra perfeitamente o pathos e a tragédia que aquela passagem narrativa quer transmitir. 

Passagem que, se lida à luz das palavras que abrem essa crítica, parece quase um jogo textual de Boselli (não falamos mais para não estragar a leitura de quem não leu).

O encontro entre Dylan Dog e Dampyr é então uma história que sem dúvida pode ser apreciada pelos apaixonados deste último, sendo, como já foi dito, uma história muito mais próxima ao estilo dampyriano do que dylandodano, em ambas as partes. Mas os leitores do Detetive do Pesadelo podem de qualquer forma curtirem e apreciarem também a aventura mesmo se, fora do mundo de Dampyr, não conseguem colher a fundo todos os referimentos presentes na segunda parte. Em compensação, podem encontrar um bela interpretação de Dylan e Groucho e a capacidade de Boselli de deixar a porta aberta na sequência.

Fica a dúvida que talvez uma maior interação entre os autores envolvidos (porque John Ghost desaparece completamente na segunda parte da história? Do ponto de vista narrativo ligado ao particular da história contada, tem pouco senso), isso teria tornado tudo mais bem sucedido, embora foi bem escrita e realizada, a história dupla.


Crítica publicada originariamente no site: www.lospaziobianco.it

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